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Pesquisadores da FSA analisam sentido subjetivo da prática docente na escola inclusiva




De acordo com o Ministério da Educação, a educação inclusiva é um paradigma educacional baseado na concepção de direitos humanos e que busca, entre outras coisas, contextualizar as circunstâncias de exclusão dentro e fora do ambiente escolar. Inserido neste contexto está o professor do Atendimento Educacional Especializado (AEE), um dos principais agentes de operacionalização da política de educação inclusiva.



Refletindo sobre o sentido subjetivo da prática docente na escola inclusiva, o professor do curso de Psicologia da Faculdade Santo Agostinho, Me. Carlos Eduardo Gonçalves Leal desenvolveu a pesquisa “O professor do Atendimento Educacional Especializado e o sentido subjetivo da sua prática na escola inclusiva”, realizada através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/FSA), juntamente com as alunas Amanda Maria Alencar e Silva e Danyele Faustino Martins.



A pesquisa é um desdobramento de um estudo realizado na edição anterior do PIBIC (2015-2016), quando analisaram as relações interpessoais de crianças do espectro autista, estudo que deu margem a novos questionamentos a cerca do cotidiano da educação especial. Para o professor Carlos Eduardo, a literatura da área aponta para algumas controvérsias em relação à prática desenvolvida pelo profissional de AEE, sua formação e seu papel na escola inclusiva.



“O foco nesse professor se justifica pelas contradições que a literatura vem apontando a respeito da sua formação, pois existe uma série de discussões sobre qual deve ser a formação desse profissional”, comenta o docente. No Brasil, segundo relata, os espaços de formação do professor do atendimento especial são mínimos, uma vez que existem poucos cursos de licenciatura em educação especial.



A pesquisa, que utilizou como estratégia de observação o estudo de caso, foi realizada em cinco escolas públicas de Teresina e teve como aporte teórico a Teoria Histórico-Cultural da Subjetividade e Epistemologia Qualitativa, de González Rey. De acordo com a aluna Amanda Alencar, o professor de AEE tem fundamental importância no contexto da educação inclusiva, embora não seja tão valorizado quanto deveria: “Esse professor tem grande necessidade de falar do seu papel, da sua importância, já que ele vai ser esse intermediário da educação. Ele é uma figura de suma importância no contexto escolar”, disse a estudante.





A partir dos aportes teóricos e metodológicos propostos por González Rey, a equipe utilizou alguns instrumentos como diálogos, entrevistas, complementos de frases e composição a fim de identificar aspectos relacionados à subjetividade dos docentes: “A gente percebe que analisar a forma como eles subjetivam a sua prática é importante para que se possa entender a implicação disso no desenvolvimento do trabalho desses professores e no processo de escolarização dos alunos”, explica a aluna Danyele Faustino.



Ainda de acordo com a estudante, é necessário que existam mais pesquisas na área de educação especial, dada sua importância no contexto social contemporâneo. “Vemos a importância dos professores conhecerem questões relacionadas à educação especial, à sua formação, que é ainda muito precária, já que essa formação não contempla as necessidades da educação inclusiva e ainda existem muitas lacunas na literatura em relação a isso”, disse a estudante.



Segundo explica o professor Carlos Eduardo, as pesquisas relacionadas ao contexto da educação inclusiva privilegiam análises de cunho objetivo, documental, o que tende a simplificar o fenômeno: “A partir do momento em que a gente trabalha com um referencial com a perspectiva da subjetividade a gente desvela aspectos implícitos presentes na operacionalização da política. A própria organização subjetiva do espaço da escola, as subjetividades dos sujeitos que estão engajados nessa operacionalização são aspectos que podem potencializar ou limitar a operacionalização da política”, comenta o docente. Carlos Eduardo ainda complementa afirmando que a pesquisa se torna reveladora ao discutir o fenômeno a partir de uma perspectiva teórica contemporânea.



O grupo já desenvolve pesquisas no campo da subjetividade a partir do referencial de González Rey. O professor Carlos Eduardo explica que tais estudos não integram o currículo formal do curso de Psicologia: “As alunas tiveram contato com uma teoria contemporânea. Aprenderam uma maneira diferente de se produzir conhecimento. Mesmo que futuramente elas não sigam essa perspectiva teórica, epistemológica, essa experiência terá valido a pena para que elas pudessem enxergar os fenômenos sociais subjetivos a partir de uma ótica diferente daquela que habitualmente utilizamos”, comenta.



Em setembro de 2016, o professor Dr. Fernando Luis González Rey (UNICEUB/DF) esteve na FSA onde proferiu uma palestra com o tema “Discutindo a relação entre práticas e saberes: a prática como cenário de produção de saber”, na abertura da Semana de Psicologia, ocasião na qual a equipe pode conversar com o pesquisador. “O fato de elas [alunas] estarem vinculadas à teoria e dele [González] saber que existe um grupo de pesquisadores no Piauí desenvolvendo pesquisas no campo da subjetividade a partir do referencial dele, abre canais de diálogo. Foi uma grande oportunidade para mim, como coordenador da pesquisa, e para elas”, disse Carlos Eduardo.



Esta foi a segunda edição do PIBIC/FSA em que Amanda e Danyele participaram como alunas pesquisadoras. Danyele define como enriquecedora a experiência de atuar em uma pesquisa de iniciação científica: “A participação no PIBIC é extremamente importante e eu gostaria que outros alunos tivessem essa oportunidade. É importante porque a pesquisa nos possibilita encontrar um mundo que, somente dentro da sala de aula, a gente não alcança”. Para Amanda, a participação no programa possibilita ao aluno sair da sua zona de conforto, o instigando a também produzir conhecimento: “A gente vai conhecer a prática e sente o peso da realidade. Vamos construir conhecimento a partir das vivências que a gente tem, das experiências, das pessoas com as quais a gente tem contato. É um crescimento muito significativo para o aluno. É importante o que a faculdade propõe pra gente que é, desde cedo, investir em pesquisa e produção acadêmica”, relata.



Para o professor Carlos Eduardo, a participação das alunas no PIBIC contribuirá para que se tornem profissionais diferenciadas: “Os alunos que passaram pelo PIBIC têm um diferencial no processo de formação. O PIBIC contribui de maneira significativa para o desenvolvimento de habilidades diferenciadas no repertório comportamental delas. O aprendizado da pesquisa será fundamental para a continuidade disso em outros níveis de estudo”, finaliza o docente.




 
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