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Aborto torna-se tema de estudo por pesquisadoras da FSA




Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 250 mil mulheres passam por situação de abortamento todos os anos no Brasil; no entanto, esse número pode passar de 800 mil, de acordo com organizações não-governamentais que atuam em defesa dos direitos femininos.



A falta de dados confiáveis sobre o número e a situação das mulheres que sofrem abortamento no Piauí chamou a atenção de duas pesquisadoras da área de Enfermagem da Faculdade Santo Agostinho. Através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), a professora Ma. Karla Joelma Bezerra realizou a pesquisa “Diagnóstico situacional do aborto em uma maternidade de Teresina-PI”, juntamente com a discente Elaine Carvalho de Oliveira (bolsista PIBIC).



Durante o estudo, realizado em uma maternidade de referência do estado, foram entrevistadas 168 mulheres com diagnóstico de abortamento, a fim de que se pudesse elaborar um perfil das praticantes. Por ser um tema estigmatizado na sociedade, as pesquisadoras destacam a importância da investigação como forma de promover o conhecimento na área. “O que chamou nossa atenção foi o número significativo de abortamentos e a dificuldade no manejo dessas mulheres. A gente percebeu o grande sofrimento pelo qual elas passam, até porque esse é um tema ainda muito estigmatizado na sociedade, as pessoas acham que você aborta, normalmente, porque provoca e não é assim”, explica a professora.



De acordo com a docente, existem diversos fatores que podem influenciar no acontecimento do aborto e a ausência de investigação sobre as causas do abortamento, dificulta o processo de mudança de postura em relação ao assunto. Ainda sobre este tópico, a estudante Elaine Carvalho afirma que o aborto não pode ser visto como um evento isolado, dissociado da realidade na qual a mulher está inserida: “A mulher não aborta sozinha. Ela aborta dentro de um contexto: ela tem o abortamento social, abortamento no contexto do trabalho (pois muitas abortam por medo de perder o emprego), existem abortamentos por problemas no lar, questões relacionadas à violência familiar que, se não desencadeia na ação-fim, influencia a decisão dela de abortar”, diz.





O estudo identificou que a maioria das pacientes entrevistadas era jovem, porém não em idade de risco, com renda familiar acima de um salário mínimo, emprego formal, sem incentivos financeiros de programas sociais, era casada ou em união estável e sem patologias graves.



Além da dificuldade de aproximação das pacientes, visto que muitas evitavam fornecer informações sobre o histórico ginecológico e obstétrico por medo de serem discriminadas e sofrerem algum tipo de violência obstétrica, as pesquisadoras ainda apontam para a falta de precisão dos prontuários, onde os abortamentos eram subnotificados e, em mais de 50% dos casos analisados, com causas desconhecidas.



A professora Karla aponta para a necessidade de se reavaliar o cuidado prestado a essas mulheres: “O profissional de saúde não está para julgar, para impor suas convicções. A gente está lá para atender, acolher e isso de forma ética, profissional. A gente avalia e trata a parte técnica, mas sabe que existem outras demandas (psicológica e social, por exemplo)”, comenta.



Para as pesquisadoras, é preciso refletir sobre a situação da mulher que sofre abortamento e percebendo-a como um indivíduo além do aspecto biológico: “A mulher chega em situação de abortamento e não sabe o que vai acontecer com ela. Ela está ali exposta, como se separada da sua parte humana, pois se observa o corpo apenas pelo aspecto biológico. Aquela mulher tem um contexto de vida, uma história. É um direito dela saber o que vai acontecer com ela e nós verificamos que isso não acontece”, finaliza Elaine.


 
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